Pele não se repara. Pele não se repele…
TEXTO 5
Entre um amontoado de cacos de sonhos do lado de dentro do meu baú, encontro uma boneca, um pote de mel e uma carta.
A Carta:
Calmaria Bailarina
Toda vez que sinto raiva, lembro do quanto você é cansativo.
Toda vez que fico triste, choro e te procuro, lembro de toda espécie de frio que você me fez sentir.
Toda vez que sinto medo, me escondo e fecho os olhos, lembro do que
deixei p’ra trás, perdido, como um filho jogado no meio do mundo. E no
meio desse amontoado estranho de sensações e de gente, lembro de vez em
quando que perdi você, mas que você não é tão humano a ponto de
entender o que é isso, mesmo assim eu sorrio e digo que não perdi muita
coisa.
Onde está o quê?
Toda vez que me perco, grito, devaneio…
danço, me embaraço…
Toda vez que sangro.
Toda vez que o sangue ferve.
Esqueço-me sou feita de carne e passo a agir como se fosse feita de ferro.
E penso como uma estúpida: Vou te ligar… de vez em quando é bom lembrar…
que ainda tenho um coração.
Em fase eterna de decomposição.
A natureza palpitava nua a tua eterna ausência.
Meus delgados lábios descreviam a cena, quase que chorando.
O garoto sério de aparência simplória, morria.
E apelava para um beijo como o meu perdão.
Reconheço a sonoridade desse não que falei sem sequer sentir o gosto
acre do não a ressoar pelos meus ouvidos incrédulos, a duvidar do que
minha própria boca tinha sugerido.
Eu gosto de dividir a noite e as flores com Ceci.
Essa carta foi escrita por ela.
Quanto à boneca, ela foi feita p’ra mim.
E ao pote de mel, pode deixar que eu me viro.
Divida seu quarto comigo…
Suas asas, sugiro…
Abrigo:
O seu paraíso.
(janeiro desse ano) Carole
